Luís Represas

Entrevista retirada do site oficial de Luís Represas

JORNAL DE LETRAS - Consigo a frase que pega é o antónimo do poema do António Botto. Só lhe peçam mais canções.

LUÍS REPRESAS - Pega, embora não seja um produtor exaustivo. Gosto de trabalhar com objectivos precisos que poderam ir de um disco a uma banda sonora. Se bem que os discos, até agora, não tinham objectivos temáticos. E só parto para um novo disco quando o antecessor for assimilado, digerido, "esgotado" ...é uma espécie de passar de testemunho. Há uma noção de perenidade e imutabilidade que me irrita - dai uma certa reticência em gravar discos periodicamente . quase que seria melhor gravar discos ao vivo. Prefiro cem vezes o deambular e as pulções do palco. Acontece sempre chegar ao palco com um disco novo e surgirem mudanças. Passam-se anos e continuam a surgir versões de versões.

JL - Há uma interpretação cada vez mais distanciada dos Trovante, mais pessoal e transmissível?
L.R. - Exacto. Cada novo disco sai mais fora do que faço comummente. Talvez seja um largar de corda para outros portos, de preferência com uma navegação lenta.

JL - E de cabotagem.
L.R. - É bom assimilar sem perder a paisagem de vista

JL - Este disco é um misto de exortação aos prazeres (amorosos, boémios...) e de lamento, sobretudo contra o egoísmo afectivo. Não engana ninguém se for lido assim?
L.R. - Pode perfeitamente lê-lo assim. Embora não o tenha planificado. Quando gravei a última canção, surpreendeu-me que focasse uma só temática, a das relações.



JL - Este, sim, podia chama-se "Cumplicidades".
L.R. - Só não lhe chamei assim porque já havia um... as relações contadas no disco revelam todos esses estados de espírito à volta do universo afectivo. Quase que podia ser um álbum de conceito.

JL - Que recado afectivo encontrou na Maria Teresa Horta?
L.R. - Ela é toda uma mulher de afectos.

JL - Vamos a outra: já que veio agora de Díli, na questão timorense, o Luís Represas equivaleu de certa maneira ao Zeca Afonso, ao Luís Cília ou ao Adriano Correia de Oliveira na época do 25 de Abril. Recuperou a imagem do baladeiro à contre coeur, uma voz de esperança, combativa. Quis espantar os males a cantar?
L.R. - Nesta questão quis participar sobretudo enquanto cidadão. Como músico fui apenas um transmissor.

JL - Afina pelo diapasão que a figura pública, já que usa da tribuna, deve Ter responsabilidades éticas e políticas?
L.R. - Se assim quiser. Não é apanágio ter esses atributos. Mas, pela exposição a que está sujeita, a catrefada de entrevistas e intervenções que em participa, devia passar mensagem e não se ficar pelo fátuo. Devia , aliás, só se poder ganhar o estatuto de figura pública tendo
esses atributos.

JL - Mesmo com estes álbuns mais delicodoces , deixa sempre uma cantiga ou estrofe a avisar que não abdica do canto militante, o que esteve na origem dos Trova+Avante. Nunca pensou arrumar a viola num saco e tentar o hemiciclo ou para nos dar música já chegam os que lá andam?
L.R. seria trair o instrumento mais valioso que tenho. Além disso, passar a mangas de alpaca, tirar-me-ia essa inteira liberdade de criticar, valorizar, estar ao pé de quem quero, Ter opiniões e não estar coarctado por nenhum grupo de pensamento.

JL - É sempre preferível ser poeta, pelo menos não se corre o risco de dar em bom cidadão...
L.R. -Nem mais. Custa-me conceber a ideia de que um artista se torne num veículo laudatório, num pombo-correio.

JL - Neste novo disco parece que o grito de alerta é mais amoroso que político, do estilo: se não nos pusermos a pau, se não repensarmos os dares e os tomares do carinho...
L.R. - ...estamos perdidos

JL - Depois da revolução de Abril, falta a dos afectos?
L.R.- Ainda estão todas por fazer. Já tiveram avanços e recuos, mas claudicaram. A dos afectos e das relações então, têm estado em sétimo plano. Ninguém consegue construir ma sociedade mais feliz e justa apoiando-se na solidão.

JL - Que mudanças operaram no seu acto criativo dos 30 para os 40 anos?
L.R. - Isto é uma verdade de La Palisse, mas se a vida é uma fonte constante de experiência, como tal, torna-se a maior fonte de inspiração. Dos 30 para os 40 existe um abrandar de velocidade. É como se tivesses um motor que aumenta a potência, mas abranda a velocidade. A arte é tudo à vida. É um manancial inesgotável que não permite clausuras, sobretudo mentais. O exilado mental é suicidário. Virar as costas à vida é morrer devagarinho.

JL - Parte da frase de Pessoa para quem "o poema é uma carne de emoção cobrindo um esqueleto de raciocínio" ou retira toda a elaboração interior e escreve ao sabor da represa?
L.R. - Sou mais emocional. Invertia a frase.

JL - Precisa do amos físico para criar?
L.R. - Intensamente.

JL - Contextos poéticos é o que não falta tanto neste como em qualquer trabalho pretérito. Do seu panteão de poetas quem está por musicar?
L.R. - O facto de João Gil ter musicado o Perdidamente, da Florbela Espanca, não significa que todos os seus poemas fossem musicáveis. Nunca houve uma busca angustiada de Poesia. Houve, sim, uma apropriação do texto, como se este tivesse encarnado em mim. Dá-se uma apropriação ilícita, mas não tributária. Sinto apenas que tenho de o mimar como se fosse meu, como se tivesse sido escrito para mim, que por minha vez, o musicarei para que outros o cantem e apropriem.



MÚSICA E ZURRAPAS

JL - Ouve todo o tipo de música que se faz por cá ou, por prudência, é selectivo?
L.R. - É a mesma coisa que gostar de vinho e permitir que me sirvam uma zurrapa e há muitas à venda por aí.

JL - É de recuperar uma frase sua "A facilidade de gravar um disco tem sido perversa: a quantidade não tem tido uma correspondência em termos de continuidade de trabalho, não se criou um terreno sólido para se trabalhar continuamente. Investir na música portuguesa é muito mais que gravar discos, é criar nas pessoas uma identificação epidérmica com a música em português". Quando os discos mais vendidos são os dos Anjos, dos defuntos Excesso e bandas quejandas ou por bandas que optam por cantar em inglês devemos estar prestes a sofrer alguma doença de pele, não?
L.R. - Disse e repito, com este acrescento: preocupa-me hoje não o que se faz, mas o que não se faz. Preocupa-me a falta de disponibilidade do mercado para deixar os músicos amadurecerem as suas propostas, deixarem-nos correr os seus próprios riscos para poderem construir uma identidade. Na voragem dos pódios, da nota fácil, do projecto obtuso, esquecem-se que ser músico não é Ter um palminho de cara e saber tocar campainhas, que antes de darem um palco, um estúdio e um estatuto há uma aprendizagem.

JL - A música portuguesa continua a ser como um "extraterrestre dentro da sua própria casa"?
L.R. - Fazem-na como tal. Existem grandes disparidades. Continua a Ter um papel de enteado.

JL - Vamos a outra sobre Timor: acrescentava algum parágrafo ao testemunho que escreveu para a Visão na sua primeira visita a Díli, em fevereiro deste ano?
JL - Acrescento que assisti a uma experiência única de dedicação a uma causa. Que perdura, apesar de todas as tentativas de desinformação que têm sido ventiladas ultimamente nalguma imprensa. O povo timorense mostrou uma disponibilidade e uma coragem que me fez recuperar um sorriso sobre o Homem.

JL - Já agora, os guerrilheiros compuseram alguma música com a guitarra que lhes ofereceu?
L.R. - Estão a dar-lhe bom uso.

JL - É verdade que vai musicar poemas de Xanana Gusmão?
L.R. - Falou-se nisso uma vez, mas não houve um desafio directo.

JL - Reconhece-lhe mérito literário?
L.R. - Reconheço e tenho um convite para lhe fazer dentro em breve.

JL - Há bons músicos em Timor ou a ditadura silenciou-os?
L.R. - Ainda é cedo. Há-os em potência, sobretudo ligados à música popular e de intervenção, mas em termos de produção as coisas ainda estão embrionárias. Assisti, agora a um concerto de uma banda rock, inspirada no John Lee Hooker e no Elvis Presley, que foi exultada.

JL - A sua ligação com Timor fica por aqui ou vai experimentar algum tipo de fusão cultural?
L.R. - Há projectos que estão a rolar, como desenvolver uma escola de música, formar uma banda e Ter um PA para os timorenses poderem Ter os seus próprios espectáculos. O Manuel Faria esta a coordenar um projecto para a construção de um estúdio de gravação em Díli. Há que começar por baixo. Os timorenses são muito musicais. Há que lhes dar terreno para crescerem.

JL - Cuba continua a ser uma espécie de segunda pátria e o Pablo Milanés o seu Obi-Wan Kenobi lírico?
L.R. - Sem dúvida. Muita música e afecto. A do Obi-Wan Kenobi é certeira. Mas juntava ao Pablo, o Sílvio Rodriguez e a Mercedes Souza.

JL - Noutra época, via-se mais como músico de corte ou flautista de Hamelin?
L.R. - Seria um trovador que teria a "perversidade" suficiente para tocar na corte aquilo que a corte não gostava de ouvir.

O DELÍRIO DA POLÍTICA

JL - A esquerda ainda lhe fala ao coração ou a dislexia de valores ideológicos não lhe permite situar-se politicamente?
L.R. - Há uma dislexia acompanhada de delirium tremens. Mas, por um lado, ainda bem porque renova o discurso e traz de volta a confluência de ideias. Obriga as pessoas a não se fecharem nas suas paredes e preconceitos. É curioso que este colapsar de horizontes da esquerda tenha contribuído para o mofo das ideologias, como se fosse o último ideal romântico perdido. A vida é muito mais rica de ideias próprias do que de imposições sloganísticas. As ideias que se trazem hoje para o colectivo, talvez sejam mais consonantes com a própria vida, menos enciclopédicas e livrescas. Deve haver espíritos mais débeis, ou mais teórico dependentes que sentem hoje uma tremenda aflição por não terem onde se agarrar , frases para citar e credos para desbobinar como ladainhas.

JL - Credo!
L.R. - Ai Jesus que estou órfão!

JL - Quando era comunista de filiação como é que era recebido pelos «tios»? Achavam-no excêntrico, diziam «coitadinho, isso passa-lhe»?
L.R.- Sempre me respeitaram , pelo menos os inteligentes. Houve muitas situações em que consegui quebrar alguns preconceitos e más ideias do comunismo . havia muitas ideias feitas e eu funcionei como aquela contra as morais instaladas.

JL - Ainda é comunista, no mínimo, à maneira de um Cristo?
L.R. - Se queres ligar a um partido, não. Não tenho militâncias . Sem substantivos ou sujeitos da acção, continuo a ser fiel aos meus princípios de cidadania que passam por partilhar. Não concebo a evolução de um indivíduo apartada do todo, por muito que valorize a individualidade e a liberdade. Perguntam-me se me sinto mais preso por ter aumentado as responsabilidades, por Ter tido filhos... não, ainda me sinto mais livre.

JL - A manifestação por Timor de lenços, lençóis e lágrimas que percorreu Portugal a seguir ao referendo foi coisa rara e nunca vista -pelo menos desde o PREC. Há algum assunto interno que mereça hoje algo idêntico, no mínimo uma pateada nacional?
L.R. - Foi uma grande lição de cidadania. Temos de estar gratos aos timorenses - se é possível estar grato a alguém pelo seu sofrimento - por nos terem feito renascer a alma. De termos sido capazes de, enquanto povo, olhar para o espalho no dia seguinte. Essa efemeridade de protesto e lamentável. Por exemplo, lá vou bater no ceguinho, mas a política nacional merecia uma grande pateada. A Democracia , sendo o melhor de todos os males, tem um problema soporífero. Correndo o risco de se ouvir frases da velha Senhora como a de que «a Política é para os políticos. Eles lá sabem o que estão a fazer». Ora, quando a nossa capacidade interventora está limitada a por um voto na urna, acto esse que é facilmente pervertido por coisas sinistras como gabinetes de marketing. Fomos capazes de dizer basta sem ninguém com uma corneta a instigar-nos!

JL - A terminar a festa: quem é o bardo da política portuguesa?
L.R. - É uma grade orquestra de bardos. Infelizmente vivemos numa sociedade que não os amarra. Ou então que não os amarrasse que os ensinasse a cantar.

In Jornal de Letras, 20/9/2000

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